Para o dono, o financeiro e o RH
Programa de bem-estar na empresa funciona? O que a ciência diz, estudo por estudo
Durante anos, circulou a ideia de que cada real em bem-estar devolvia três. Os ensaios randomizados que vieram depois não acharam isso. Vale saber o que cada estudo mediu.
Resposta curta
A promessa de retorno veio de uma estimativa de 2010, baseada em estudos observacionais (Baicker, Cutler e Song, Health Affairs, 2010). Ela indicava US$ 3,27 de economia médica por dólar. Os ensaios randomizados seguintes não confirmaram. Não houve efeito em gasto, faltas ou retenção em 18 meses nem em três anos (Song e Baicker, JAMA, 2019; Health Affairs, 2021). E a seleção pode explicar parte das economias antigas (Jones, Molitor e Reif, QJE, 2019). Para a PME, o recado é: programa de hábitos não mostrou retorno; o retorno medido apareceu na gestão dos casos conhecidos, com ressalvas.
Programa de bem-estar devolve dinheiro?
Pela melhor evidência disponível, não. Programas de hábitos, como nutrição, atividade física e controle de estresse, não reduziram gasto com saúde nem faltas nos ensaios randomizados citados aqui. O que mudou foi o comportamento declarado, não o custo.
Isso contraria a ideia que circulou por anos no mercado. Vale entender de onde veio a promessa, por que ela caiu e o que ficou de pé.
De onde veio a promessa: a estimativa de 2010
A promessa veio de uma meta-análise, que é um estudo que junta os resultados de vários outros. Ela indicou economia médica de US$ 3,27 por dólar investido e economia em absenteísmo de US$ 2,73 por dólar (Baicker, Cutler e Song, Harvard, Health Affairs, 2010).
O problema estava nos estudos reunidos. Eram observacionais: comparavam quem aderiu ao programa com quem não aderiu. Mais de 90% da amostra vinha de empresas com mais de mil funcionários. Quem adere costuma ser quem já cuida da saúde, e a comparação favorece o programa. Dois dos autores, Song e Baicker, conduziram anos depois o ensaio que não reproduziu esses números. Hoje a estimativa de 2010 só pode ser lida como histórica, não como fato.
O que os ensaios randomizados acharam
Ensaio randomizado é o estudo em que o sorteio decide quem recebe o programa. Isso elimina a seleção. Dois grandes ensaios foram publicados em 2019, um numa rede de varejo e outro numa universidade.
| Estudo | Amostra | Resultado em custo e faltas |
|---|---|---|
| Song e Baicker, JAMA, 2019 | 160 unidades de uma rede de varejo, 32.974 empregados, 18 meses | Nenhuma diferença em gasto, uso, faltas, permanência ou desempenho; mais gente dizendo que se exercita |
| Song e Baicker, Health Affairs, 2021 | O mesmo grupo, três anos | Nenhuma diferença em gasto, uso ou retenção; ganhos de comportamento mantidos |
| Jones, Molitor e Reif, QJE, 2019 | Universidade de Illinois, 4.834 participantes, mais de dois anos | Nenhum efeito em gasto, hábitos ou produtividade; quem aderiu já gastava menos antes |
O estudo de Illinois trouxe o número que mais importa para quem decide. Os intervalos de confiança excluem 84% das estimativas de economia publicadas antes. Em linguagem simples: a maior parte das economias prometidas não cabe no que o ensaio mediu. E a seleção apareceu nos dados: quem entrou no programa já custava menos.
O estudo do governo americano: US$ 157 por ano, sem significância
Antes dos ensaios, a RAND Corporation estudou programas de bem-estar para o Departamento do Trabalho dos Estados Unidos (Mattke et al., RAND, 2013). O estudo usou dados de cerca de 600 mil empregados de sete empregadores.
Participar por cinco anos foi associado a uma diferença média de US$ 157 por ano no custo de saúde, sem significância estatística. Ou seja, a diferença pode ser acaso. Os programas ficaram associados a ganhos em exercício, tabagismo e peso. Só 46% dos empregados fizeram a avaliação de risco e cerca de 16% usaram gestão de doença. Os autores alertaram contra assumir retorno financeiro. É estudo observacional, mas a conclusão aponta na mesma direção dos ensaios. A participação também importa: se metade da equipe não usa o programa, o efeito sobre a conta da empresa tende a ser pequeno.
O que diferencia programa que funciona, com ressalva
Há quem defenda que programas bem desenhados funcionam e os mal executados falham (Goetzel et al., Johns Hopkins, JOEM, 2014). A revisão lista boas práticas: objetivo claro, base em evidência e medição crível. É uma revisão narrativa, não meta-análise, e os autores têm vínculos com a indústria de bem-estar. Serve como lista do que exigir, não como prova de retorno.
Um estudo mostrou outra coisa. O retorno medido apareceu em gestão de doença, que é acompanhar quem já tem condição conhecida, e não em mudança de hábito. No programa da PepsiCo, gestão de doença devolveu US$ 3,78 por dólar e estilo de vida US$ 0,50 (Caloyeras et al., RAND, Health Affairs, 2014; observacional, uma empresa). Veja onde está a economia nos casos de alto custo.
O que a PME faz com isso
- Não compra programa de hábitos esperando retorno. Se a empresa quiser oferecer ginástica ou palestra, que seja como benefício, com custo conhecido, não como investimento.
- Pergunta à operadora o que ela já faz. Algumas operadoras têm programas de acompanhamento de casos conhecidos incluídos no contrato; confira o seu. A empresa pergunta quantas pessoas estão acompanhadas, em número, sem nome.
- Mede antes de agir. Os quatro números do RH, por mês: plano, atestados, afastamentos e rotatividade. Sem linha de base, qualquer resultado é opinião. Veja como medir o retorno sem inventar número.
- Desconfia de percentual prometido. Se os ensaios não acharam efeito, ninguém pode garantir economia para a sua empresa. Veja o que funciona em programa de saúde na empresa.
Vale um lembrete sobre o que os ensaios não dizem. Eles não dizem que cuidar da equipe é inútil. Dizem que um tipo específico de programa, o de hábitos oferecido a todos, não mudou custo nem faltas no prazo medido. Sobre plano bem desenhado e orientação de uso, esses ensaios não dizem nada, nem a favor nem contra.
Como a ASF auxilia a PME nessa decisão
A ASF não vende programa de bem-estar. Lemos com a empresa o relatório de utilização, que é o documento da operadora com o uso do contrato por tipo de atendimento. Perguntamos à operadora o que ela já acompanha. Orientamos o desenho do plano e a conversa com a equipe sobre a rede. Se a empresa quer um benefício de bem-estar, ajudamos a dimensionar o custo, sem prometer retorno. A orientação é sem custo. Veja o plano de saúde empresarial.

Guia em PDF · sem custo
Guia do controle de sinistralidade
Como calcular, o que pesa, o relatório que a empresa pode pedir e o programa de 90 dias até a renovação.
Receber o guia →Leia também: os custos ocultos da saúde na empresa · renovação do plano empresarial · gestão de sinistralidade · NR-1 e riscos psicossociais · afastamentos e saúde mental.
Empresa com 50 a 5.000 funcionários? Os guias de gestão de saúde, medicina do trabalho e NR-1 estão na EvySaude, a marca do grupo ASF para esse porte.
Peça o mapeamento da sua empresa
Mapeamento dos custos ocultos
Um consultor da ASF levanta onde a saúde está custando na sua empresa: plano, afastamentos, faltas, risco trabalhista e processos. Sem custo.
Conversa direta
Fale agora com um consultor. Se tiver em mãos, mande a última fatura do plano e o relatório de uso da operadora.
Pedir o mapeamento
Perguntas que recebemos
É verdade que cada real em bem-estar devolve três?
Não como fato atual. O número vem de uma meta-análise de 2010 baseada em estudos observacionais (Baicker, Cutler e Song, Health Affairs). Os ensaios randomizados de 2019 e 2021, inclusive dos mesmos autores, não acharam efeito em gasto.
Dezoito meses não é pouco para ver resultado?
A objeção foi testada. O mesmo grupo foi acompanhado por três anos e continuou sem diferença em gasto, uso ou retenção (Song e Baicker, Health Affairs, 2021).
Por que os estudos antigos achavam economia?
Em parte, por seleção. Quem adere ao programa já gastava menos e tinha hábitos melhores antes dele (Jones, Molitor e Reif, QJE, 2019). Comparar participantes com não participantes favorece o programa.
Então a empresa pequena não deve fazer nada pela saúde da equipe?
Pode, e há onde olhar: o desenho do plano, a orientação sobre a rede, o acompanhamento dos casos conhecidos pela operadora e a medição mensal. Esses itens não foram testados nos ensaios; servem para gerir, não para esperar retorno. Programa de hábitos pode existir como benefício, não como investimento com retorno.
De onde vêm as informações
Fontes: estimativa histórica de US$ 3,27 e US$ 2,73 por dólar: Baicker, Cutler e Song (Harvard), "Workplace Wellness Programs Can Generate Savings", Health Affairs, 2010 (meta-análise de estudos observacionais; mais de 90% das empresas acima de mil funcionários). Sem efeito em gasto, faltas e retenção: Song e Baicker, JAMA, 2019 (160 unidades, 32.974 empregados, 18 meses); Song e Baicker, Health Affairs, 2021 (três anos). Seleção e intervalos que excluem 84% das economias publicadas: Jones, Molitor e Reif, Quarterly Journal of Economics, 2019 (4.834 participantes). US$ 157 por ano sem significância, 46% em rastreio e cerca de 16% em gestão de doença: Mattke et al., RAND Corporation, Workplace Wellness Programs Study, 2013 (cerca de 600 mil empregados, sete empregadores; observacional). Boas práticas, com ressalva de vínculos com a indústria: Goetzel et al., JOEM, 2014 (revisão narrativa). Gestão de doença US$ 3,78 e estilo de vida US$ 0,50 por dólar: Caloyeras et al. (RAND), Health Affairs, 2014 (PepsiCo, sete anos; observacional). Revisado pela ASF em outubro de 2026.